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sábado, setembro 11, 2010

London Skies.


Londres, a cidade cinza. Pelo menos essa é a imagem mental coletiva que prevalece quando se fala da cidade construída às margens do Rio Tâmisa. Mas... há sempre um "mas". Em determinados momentos, essa realidade cinza não se confirma e o céu londrino deixa de fazer jus à sua fama "monocolorida". Essa é a impressão que tenho agora. Depois de um mês morando aqui, já vi verdadeiras pinturas no céu de Londres.

Na minha imaginação, há uma artista maluca (somente uma mulher poderia conhecer tantas cores) que mora entre as nuvens e o Sol, e que, entre uma pancada de chuva e outra, pinta seus delírios coloridos nas brancas nuvens que se destacam sobre o fundo azul. As nuvens são suas telas, o azul do céu a moldura para suas pinturas.


O verão londrino me surpreendeu: dias nublados e frios seguidos de dias de céu ensolardo e nuvens pintadas em tons que variam do amarelo ao violeta, passando pelo laranja e o vermelho.


Em um dia ensolarado, sem nenhuma nuvem, o céu pode até mesmo adotar a cor verde-clara, só para melhor emoldurar o Big Ben.


O cair da noite também surpreende. Diferente do que ocorre na cidade de São Paulo, que matou o horizonte com seus inúmeros prédios e tanta poluição, olhar o céu de Londres durante o crepúsculo permite acompanhar o ocaso do dia e a chegada da noite, em tonalidades de azul e verde.


Ok, tecnicamente, ainda é verão por estes lados (sim, tecnicamente, pois o verão aqui é bastante frio para os padrões brasileiros) e o inverno será MUITO diferente. Mas, por enquanto, mesmo nos dias de chuva, o céu teima em surpreender.


Espero que eu possa também vir a admirar o inverno londrino. Talvez eu consiga, inspirado por Jamie Cullum na música London Skies:
Nothing is certain except everything you know can change
You worship the sun but now can you fall for the rain...

domingo, dezembro 07, 2008

Jorge Elias Não Era Mau.


Jorge Elias não era mau. Não. Ele tinha um lado sádico que o incentivava a fazer coisas que o enchiam de satisfação. Gostava de sair com o carro em dia de chuva para passar pelas poças d'água e molhar as pessoas nas paradas de ônibus. Sentia prazer nisso. Imaginava os xingamentos que lhe eram dirigidos e as pessoas molhadas se atrasando para os compromissos. Seus dias eram sempre parecidos: acorda, desjejum, banho, jornal, TV, almoço, entrevistas para empregos, boteco, cerveja, bilhar, janta, banho, cama. A ordem variava de dia a dia, para não cair na rotina, como ele muitas vezes repetia. Nem sempre ele aparecia nas entrevistas, pois achava perda de tempo. Com apenas vinte e um anos, era óbvio que ainda não tinha a experiência exigida para a maioria das vagas. É bem verdade que nunca se esforçou para obter uma qualificação profissional, mas já havia trabalhado em inúmeros lugares: fora entregador de remédios de uma farmácia (mas teve que ser demitido pelo "sumiço" de vários medicamentos tarja preta), também trabalhara como Office boy de uma firma de advogados (mas sua demissão foi inevitável após tomar os iogurtes que o patrão guardava na geladeira da copa) e ainda tinha experiência como garçom em um bar (mas foi tão pouco tempo que quase não deu tempo dele aprender nada).

Naquela manhã, porém, Jorge Elias acordou do avesso. Não sem motivo: a noite tinha sido agitada, com sonhos estranhos. Alguns reveladores, outros beirando o pesadelo. A camisa molhada era indício da aflição que durou toda a suada noite. Levantou-se num susto e pulou da cama, em direção ao banheiro. Sua mãe até estranhou, pois o desjejum já estava na mesa. Menino atrevido, além de ficar o dia todo na rua, agora vai dar de não tomar café pela manhã? Ah, mas se o pai dele ainda fosse vivo... Dona Clarice fazia vistas grossas para a vida desregrada de seu filho, um pouco por sentir-se impotente, um pouco por projetar na ausência do pai as razões para o filho ser do jeito que era, aliviando a culpa que sentia. Jorge Elias, então, passou voando pela cozinha, beijou a mãe de passagem e saiu. Volto só à noite, se despediu. A mãe nem mais ficava animada. No começo achava que o filho ia arranjar algo logo, mas depois de quatro meses de sai-de-manhã-e-volta-de-noite, sem nenhum sucesso, já não sabia mais o que pensar.

Jorge Elias saiu e foi para a rodoviária. Passou na bilheteria e, ofegante, pediu Uma passagem para Bertioga, faz favor? Havia juntado os trocados que ficavam no vaso da mesa de jantar da sala com o pouco que guardava na bagunça de seu quarto. E quem disse que ele foi fazer algo especial, algo de outro mundo, algo divino? Ele só havia sonhado com o mar e queria conhecê-lo. Daquele dia não poderia ter passado, como, de fato, Jorge Elias não deixou passar.