domingo, outubro 10, 2010

O Nada Nosso De Cada Dia (ou Il Dolce Far Niente).


Domingo.

Hoje eu acordei devagar, lento. Levantei-me vagarosamente e sentei-me à beira da cama. O relógio piscava em verde reluzente: meio-dia e quinze. Acendi o abajur. Esfreguei os olhos sem vigor. Preguiça, eu pensei. Ainda inebriado pelos sonhos recém interrompidos, melancolicamente afastei a cortina e deixei a claridade invadir o quarto. Abri a janela menos de um palmo, apenas o suficiente para que o ar fresco pudesse invadir o ambiente. Olhei para a cama, que, mesmo desarrumada, ainda se insinuava para mim bastante aconchegante. Resisti bravamente e segui até o banheiro. Sem acender a luz, olhei-me no espelho – o mais traiçoeiro dos objetos, pois desnuda os sonhos ao mostrar nada mais do que a realidade. Há quem diga que os sonhos são esquecidos no momento em que se olha no espelho pela manhã, logo após acordar. Faz sentido. Não há maior choque de realidade do que se olhar no espelho. Dei de ombros. Escovei os dentes indolentemente e fui pensando nos planos para o dia. Que planos? Nada programado. Dia livre para fazer o que quiser! Qualquer coisa. Um mundo de opções, possibilidades, alternativas, escolhas. Enxagüei a boca e voltei para o quarto. A cama continuava convidativa e antes que eu sucumbisse a ela, guardei as cobertas, os travesseiros, tirei o lençol e até o colchão. Eu sabia que medidas drásticas eram necessárias naquele momento.

Olhei ao redor e fixei os olhos na janela. O sol brilhava alto: meio-dia e cinqüenta. Então a dúvida de toda pessoa que acorda após o meio-dia passou a consumir os meus pensamentos. Tomar café da manhã ou almoçar? Minha mente se preencheu com essa dúvida. De um lado, o café da manhã tardio atrasa toda a programação do dia, porque empurra o horário de todas as demais refeições para mais tarde. De outro lado, almoçar logo ao levantar nem sempre é prazeroso, pois o corpo ainda está preguiçoso demais para uma refeição completa. A dúvida persistiu. Segui em direção à cozinha, confiante que ao percorrer o curto trajeto que a separa do meu quarto eu decidiria. A vida é feita de decisões constantes e inconscientes. Porém, a necessidade de refletir melhor sobre algo em específico torna a tomada de decisão muito mais complexa. São muitas as variáveis. A indecisão. Ah, a indecisão! Enquanto eu refletia sobre tudo isso, inconscientemente abri o armário e peguei o cereal. Na geladeira, peguei o leite, o arroz e o feijão com frango. Joguei açúcar no cereal e adicionei o leite. Esquentei o que precisava ser esquentado. Fui de cereal com leite, arroz e feijão com frango. Enquanto eu considerava as possibilidades, a fome decidiu por mim. Decisão salomônica, nada ortodoxa.

Fui à varanda e sentei-me na rede. O sol brilhava atrás das nuvens: duas e quarenta da tarde. Espreguicei-me. Passei a admirar a paisagem. Fiz-me de espectador. Todo arredor era cenário para o teatro particular que se encenava a minha frente. Meus olhos displicentemente acompanhavam o movimento. Pessoas falavam enquanto caminhavam; jogavam papo para o ar. Meus ouvidos captavam as conversas e minha imaginação as emendava uma na outra, formando diálogos únicos e exclusivos. Uma brisa soprou suave. Preguiça, eu murmurei ao bocejar. Recostei-me na rede e reparei que não havia sequer uma nuvem no céu. O sol estava fora do meu campo de visão. Adiante, uma imensidão azul brilhante e infinita. Deitei na rede. Fechei os olhos para admirar a vermelhidão das minhas pálpebras. Sem muito esforço, cochilei.

Acordei de sobressalto. Onde estou? O sol brilhava laranja: sete e vinte da noite. Desmontei da rede e me joguei no chão, meu corpo ainda sonolento demais para sustentar-se em pé. O piso gelado foi me despertando aos poucos até que levantei. Entrei em casa a passos lentos, ainda letárgico. Tropecei no jornal durante o caminho até a sala. Levei-o comigo. Sentei na poltrona e passei a ler as notícias do dia. Cansei rapidamente, de tão enfadonhas que eram. Busquei um livro na prateleira e comecei a lê-lo. Macunaíma de Mário de Andrade. Um sorriso maroto brotou no canto de meus lábios. Apropriado, eu ponderei. Ai, que preguiça!

sábado, setembro 11, 2010

London Skies.


Londres, a cidade cinza. Pelo menos essa é a imagem mental coletiva que prevalece quando se fala da cidade construída às margens do Rio Tâmisa. Mas... há sempre um "mas". Em determinados momentos, essa realidade cinza não se confirma e o céu londrino deixa de fazer jus à sua fama "monocolorida". Essa é a impressão que tenho agora. Depois de um mês morando aqui, já vi verdadeiras pinturas no céu de Londres.

Na minha imaginação, há uma artista maluca (somente uma mulher poderia conhecer tantas cores) que mora entre as nuvens e o Sol, e que, entre uma pancada de chuva e outra, pinta seus delírios coloridos nas brancas nuvens que se destacam sobre o fundo azul. As nuvens são suas telas, o azul do céu a moldura para suas pinturas.


O verão londrino me surpreendeu: dias nublados e frios seguidos de dias de céu ensolardo e nuvens pintadas em tons que variam do amarelo ao violeta, passando pelo laranja e o vermelho.


Em um dia ensolarado, sem nenhuma nuvem, o céu pode até mesmo adotar a cor verde-clara, só para melhor emoldurar o Big Ben.


O cair da noite também surpreende. Diferente do que ocorre na cidade de São Paulo, que matou o horizonte com seus inúmeros prédios e tanta poluição, olhar o céu de Londres durante o crepúsculo permite acompanhar o ocaso do dia e a chegada da noite, em tonalidades de azul e verde.


Ok, tecnicamente, ainda é verão por estes lados (sim, tecnicamente, pois o verão aqui é bastante frio para os padrões brasileiros) e o inverno será MUITO diferente. Mas, por enquanto, mesmo nos dias de chuva, o céu teima em surpreender.


Espero que eu possa também vir a admirar o inverno londrino. Talvez eu consiga, inspirado por Jamie Cullum na música London Skies:
Nothing is certain except everything you know can change
You worship the sun but now can you fall for the rain...

sábado, julho 31, 2010

Voei.


23h15, 28 de Julho de 2010, embarquei no voo JJ 8084 com destino a Londres.

Era o início de uma viagem que planejei durante dois (longos) anos. É possível imaginar o quanto ansioso e excitado eu estava naquele momento.

As aeromoças todas sorridentes e receptivas, como sempre o são. Mas, na minha interpretação, elas sorriam de um modo especial, apenas para mim, como se compartilhassem da minha alegria. Eu podia imaginá-las pensando, em aprovação: "é isso aí, chegou a hora pela qual você tanto esperou".

O simples entrar no avião foi algo cheio de significados. E, por essas coisas do acaso, para coroar o momento, a música ambiente que tocava no avião, logo que me sentei na poltrona 29 K do Boeing 777, era 'Rondó do Capitão', dos Secos e Molhados.

Os versos ecoaram em meus ouvidos, reverberando nos sentimentos que me sufocavam depois da recente despedida de pessoas tão queridas. A despedida foi como toda despedida acaba sendo: carregada de emoção.

Ao ouvir a música, o coração continuou apertado. Mas tudo pareceu fazer algum sentido.

Senhor Capitão, tirai esse peso do meu coração. Não é de tristeza, não é de aflição. É só de esperança, Senhor Capitão!

quinta-feira, julho 22, 2010

A felicidade, essa superestimada.


O que faz você feliz? O que é ser feliz? Como se mede a felicidade?


Tenho a impressão que muitas pessoas nunca chegam a se fazer essas perguntas e, muito menos, procuram tentar respondê-las. Ainda que as pessoas não estejam necessariamente preocupadas em saber o que é a felicidade ou o que as fazem felizes, a grande maioria busca essa tal felicidade.

Independente do que entendo (ou ignoro) sobre a felicidade, fato é que o Congresso Nacional brasileiro está se movimentando para garantir o direito à busca da felicidade pelos cidadãos brasileiros. É isso mesmo: existe um Projeto de Emenda Constitucional (PEC) que pretende incluir a “busca da felicidade” no capítulo da Constituição Federal que trata dos direitos sociais (mais precisamente, no artigo 6º).

O projeto vem sendo chamado de "PEC da Felicidade" e é promovido pelo Movimento Mais Feliz.

A ideia pode ser muito bonita, todavia, na minha opinião, essa "PEC da Felicidade" não muda nada. É muita retórica e demagogia para pouca ação. Mesmo sabendo que a PEC não pretende garantir a felicidade, mas, sim, a sua busca por cada cidadão, não consigo concordar.

Primeiro, porque sou da opinião que isso não precisa estar escrito na Constituição. Até por conceito, a Constituição não deve se prestar a estabelecer uma garantia social carregada de tanta subjetividade quanto a "busca da felicidade".

Segundo, porque, sinceramente, estando escrito ou não, não vai fazer a menor diferença. O que faria a diferença seria efetivamente buscar a educação, a saúde, etc. (o que, diga-se, já está previsto na Constituição, nesse mesmo artigo 6º que se busca alterar pela "PEC da Felicidade" - e, até hoje, não vemos grandes mudanças...). A felicidade, daí, poderia vir como consequência (ou não, pois depende de cada pessoa). Em resumo, não é a inclusão desse texto que vai fazer a diferença.

Finalmente, e o mais importante, eu não consigo concordar com a PEC porque ela parte da premissa de que existe uma tal felicidade, plena e irrestrita, possível de ser usufruída por toda e qualquer pessoa, desde que garantidos determinados direitos sociais.

A verdade é que a tal da felicidade é algo bastante superestimado pela sociedade moderna e capitalista, que a idolatra e a coloca como um objetivo final a ser alcançado, ao lado da glória, da fama e do dinheiro.

O que vejo por aí sobre a felicidade é um conceito muito superestimado, utópico, inatingível e distante da realidade, pelo qual a felicidade sempre estará dois passos adiante de onde nos encontramos. A busca pela felicidade, então, se torna uma pressão desnecessária e que dificulta a conjugação do verbo viver.

Eu procuro não tentar descobrir onde está a felicidade. A bem da verdade, já desisti de a procurar. Não porque eu tenha concluído que ela não existe ou porque entenda que ela seja inatingível. Mas, sim, porque passei a acreditar que buscar ou não a felicidade não é o mais importante. Se ela existe ou não, o que ela significa e representa, se está próxima ou distante, não é algo que me interessa.

Reconheço ter vivido muitos momentos felizes e dou valor a cada um deles. Prefiro, porém, não carregar o fardo de ter a felicidade como objetivo. Apenas desejo que ela dê as caras de tempos em tempos, aleatória e despretensiosamente.

Talvez simplesmente não exista a felicidade plena, tal como retratada em filmes, novelas, etc., mas momentos felizes, que muitas vezes não são notados de imediato, senão depois de vividos. E acho que isso basta.

* * *

Para maior reflexão, para quem se interessar, deixo abaixo os trechos e os respectivos links para três textos sobre o assunto:
O que é a felicidade? Como você define a felicidade? Os filmes nos mostram uma utópica. Os romances, idem. Eu sonho com um dia na praia, coqueiros, céu azul, sem nuvens de preferência, com uma linda mulher e uvas sendo colocadas na minha boca. Acho difícil que aconteça, mas quem sabe.Tudo é tão pretensioso. Tudo deve ser tão sofisticado. Nunca estamos satisfeitos com o que temos. Aposto que se eu estivesse na praia, com os coqueiros, um lindo dia e uma linda mulher, ainda me faltaria a sombra.
Em matéria de felicidade, os governos podem oferecer as melhores condições possíveis para que cada indivíduo persiga seu projeto - por exemplo, como sugere a emenda constitucional proposta, garantindo a todos os direitos sociais básicos. Mas o melhor governo é o que não prefere nenhuma das diferentes felicidades que seus sujeitos procuram.
(O Direito de Buscar a Felicidade por Contardo Calligaris)

Em minha modesta opinião, o ponto fraco desse artigo, e de outros similares, dessas pesquisas, e de outras similares, é uma completa incapacidade de definir.... felicidade! Afinal, o que é felicidade? É um estado de êxtase? São momentos de transcendência? É simplesmente a ausência de dor? É o prazer? Como medir isso de forma objetiva? Como medir isso de forma objetiva para pessoas de culturas diferentes, com valores diferentes, com prioridades diferentes?
* * *

A maior certeza sobre a felicidade foi cantada por Vinícius de Moraes e Tom Jobim:
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar.
Abaixo, a interpretação de Tom Zé:

Pensamentos de uma noite escura.


Revirando meu caderno de anotações, encontrei esse rascunho, escrito no dia do apagão, em novembro de 2009.

Talvez seja intempestivo, como de fato quase tudo o é nesses dias de conectividade absoluta e ininterrupta. Mas essas palavras tem a sua importância (ao menos para mim).

* * *

(23h27, 12 de novembro de 2009)

1. Estou aproveitando o apagão (e o refluxo) para escrever, porque só ouvir rádio e pensar não está funcionando.

2. Eu estava voltando para casa, na Rua França Pinto, quando tudo apagou. O mais estranho é que alguns carros parados na rua começaram a apitar o alarme no exato mesmo segundo em que o apagão aconteceu. Não entendi nada. Na hora, achei até que tivesse sido uma descarga elétrica, algo localizado na região, porém, na sequência, já imaginei algo maior, porque a rua estava muito escura. Só depois foi entender o que estava acontecendo, quando liguei o rádio.

3. Há 10 anos (em 1999) aconteceu a mesma coisa (mas eu tava na Nova Zelândia!). O pessoal da oposição deve estar comemorando, pensando em usar isso contra a Dilma no ano que vem (em 2010). [Nota de Atualização: acho que usaram mesmo esse episódio um pouco, mas nada que tenha abalado a canditatura Dilma]

4. Tem uma doida na rádio viajando na maionese, dizendo que a culpa é do Lula, que reduziu o IPI da linha branca; tinha que ser carioca! (haha, nada contra, adoro o RJ. É que o sotaque dela é exageradamente exagerado).

5. Acabei de ouvir que o problema é em Itaipu. Só podia. O Brasil depende demais dessa usina hidrelétrica.

6. É engraçado. Na hora que a luz apagou de vez aqui em casa (demorou quase 30 minutos depois do primeiro apagão), eu logo pensei nas pessoas que mais gosto e que me fazem falta, mas não consegui falar com ninguém. Nem os celulares estão funcionando. [N.A.: o que era um tanto óbvio, mas que não pensei no dia]

7. Impressionante como somos absolutamente dependentes da energia elétrica. Faz cerca de um mês eu andei pensando exatamente nisso: como seria difícil viver sem energia elétrica hoje em dia. Tudo, tudo!, funciona por conta da energia elétrica... Mas é óbvio que, pior do que ficar sem luz, é ficar sem água. Daí não tem condições, definitivamente.

8. Escrevendo à luz de vela. Acho que nunca havia feito isso. E estou torcendo para a luz não voltar e ninguém precisar ir trabalhar amanhã... [N.A.: A luz voltou...]

9. Agora começam as hipóteses: foi em Itaipu. Não sabem o porquê ainda. Estão dizendo ser fator externo (tempestades). Já está todo mundo correndo pra dizer que não tem nada a ver com o apagão de 1999 e o racionamento de 2001.

10. Nessas horas faz falta o computador e estar conectado. Aí dá pra questionar se estamos desaprendendo a ficar sozinhos, pois a toda hora podemos estar online, conversando com algúem. Pode passar a falsa impressão de estarmos acompanhados. O que é, sim, verdade. [N.A.: essa frase não está fazendo sentido. Pelo menos, não mais. Mas na época devia dizer algo. Bom, ficará aqui registrada]

* * *

Foi preciso que acabasse a energia elétrica para que naquela noite eu fugisse da rotina e, então, resolvesse me ouvir. E foi preciso que o James Siqueira escrevesse esse texto para que eu encontrasse o rascunho acima e o postasse aqui.

domingo, janeiro 10, 2010

Minicontos No Abecedário.



Só cheguei até o F, por enquanto. Mas vou até o fim.

A - Ah, assim as aves acabam avançando! Atenção! Antes, adiante-se.

B - Besteira boa balbucia-se baixinho. Boca beija, batom borra.

C - Cada conquista conta. Conte-me: como conseguiu?

D - Desejos diretos. Dá-me delírios, deixo-te à deriva. Dedos descem devagar; descem demais. Desista de dormir...

E - Enquanto esvaziávamos estantes, escondeu-se. Encontraram-na entre exuberantes edifícios. Ela, esquecida e estática. Eu, emocionado.

F - Fatos furtivos. Felizmente, foi fácil fazê-lo falar. Fumando futilmente, fantasiou fábulas familiares e finalizou: "Facas furam fundo...".

O Fim Chega Quando Tudo Termina.


Fitou o espelho.
Olhou-o nos olhos
e pediu-lhe perdão.
Gritou em desespero.
Cansado do imbróglio,
aproximou as mãos.
Cansado de sê-lo,
puxou o gatilho,
economizou no sermão.