terça-feira, abril 05, 2011

Por uma educação que nos ajude a pensar.


Sim, toda pessoa deve ter a mesma oportunidade de ser ela mesma. Em outras palavras, toda pessoa deve ter a mesma oportunidade de ser desigual, de ser única. As oportunidades podem ser oferecidas, mas o matemático tem de se tornar matemático e o músico tem de se tornar músico ~ Osho

Tenho refletido bastante sobre o tema ‘educação’ nos últimos tempos. Cheguei a mencionar em um post de novembro de 2010 que o sistema educacional brasileiro precisa ser reestruturado (aqui). Como em tudo nessa vida, estou longe de entender completamente todos os problemas existentes. No entanto, do que já matutei, eu arrisco afirmar que o atual modelo educacional adotado e os métodos de ensino utilizados estão bastante ultrapassados (e isso não é exclusividade do Brasil).


Em geral, o modelo ainda hoje utilizado remonta à Revolução Industrial (século 18). Quando idealizado pelos pensadores iluministas, fazia sentido um sistema educacional rígido e classificativo. Vários elementos desse sistema educacional são extremamente semelhantes ao ambiente de uma fábrica. Não é à toa que (a) as aulas seguem sempre um padrão de tempo determinado com intervalos programados (turnos e intervalos de trabalho), (b) com sinal sonoro entre uma aula e outra avisando o início e o fim dos turnos, digo, das aulas (apito das fábricas) e (c) privilegiando a individualidade, proibindo a cola ou a consulta (em geral, as atividades fabris eram especializadas e realizadas individualmente, em um ambiente não-colaborativo).

Àquela época, era importante que a educação visasse qualificar potenciais trabalhadores a serem futuramente inseridos em um sistema capitalista industrial. A educação tinha uma evidente utilidade econômica: capacitar mão de obra qualificada para o trabalho nas fábricas. A educação podia ser qualificada pela sua utilidade. As áreas de conhecimento poderiam ser divididas de acordo com a sua necessidade econômica (muito embora nunca tenham sido oficialmente classificadas dessa maneira): economicamente úteis (tais como matemática e ciências) e economicamente inúteis (tais como artes e música).

Hoje em dia, as escolas já não mais atendem as exigências de um capitalismo evoluído, voltado para a prestação de serviços e cada vez mais compartimentado em especialidades cada vez mais específicas. Isso sem mencionar um fenômeno relativamente recente: a colaboração e o trabalho coletivo, que não é o infame ‘trabalho em equipe’, mas um trabalho coletivo e colaborativo, conseqüência da internet, comunicação instantânea, mídias sociais, etc.

É evidente que, em função da própria evolução do sistema capitalismo, o mercado de trabalho expandiu além do que imaginado séculos, décadas, meses, semanas e até mesmo dias atrás. Novas profissões surgem a cada semana e é impossível saber quais as profissões relevantes do futuro. Um fato interessante a esse respeito é a desatualização praticamente instantânea de todas as referências usadas no ensino tradicional. Hoje em dia, as informações se propagam muito rapidamente, tudo está em um estado de mudança constante (se é que é possível algo tão paradoxal quanto um ‘estado de mudança’). As verdades absolutas ensinadas nas escolas mudam completamente de um ano letivo para o outro ou mesmo durante um bimestre para o outro.

Ora, nesse cenário, como fazer para preparar os alunos para o futuro? Esse é o grande dilema que o sistema de educação atual não tem condições de resolver, justamente por ser tão rígido e baseado somente no conhecimento já sedimentado, não viabilizando uma educação menos rígida e mais dinâmica. Parece-me que não faz mais sentido dividir o currículo escolar em humanas, biológicas e exatas, ou, até mesmo, em matérias pré-definidas (matemática, química, biologia, geografia, história, física, etc.). A interdisciplinaridade é a nova regra: há muita física na geografia, assim como há muita química na biologia; muita história na literatura e na dança; muita geografia nas artes; muita matemática na música, etc. O ensino impositivo e estratificado deixa de atender às novas demandas profissionais e, pior!, deixa os estudantes extremamente entediados, dispersos e insatisfeitos. Isto, porque não são estimulados a desenvolver as suas habilidades inatas. Pelo contrário. São moldados ao sistema educacional e obrigados a se adaptarem a ele.

A palestra registrada no vídeo abaixo é bastante elucidativa a esse respeito. O Sir Ken Robinson apresenta um panorama histórico e afirma que a educação dentro desse método de ensino foi modelada exclusivamente para atender os interesses do industrialismo. Ao final, ele conclui que um novo método deve ser experimentado, com uma nova dinâmica no ensino dos alunos. É o que ele chama de ‘novos paradigmas’ da educação:




O Sir Ken Robinson faz referência a um estudo longitudinal muito interessante, no qual o nível de ‘genialidade’ de crianças foi avaliado ao longo do tempo. Primeiro, no jardim de infância e depois, novamente, com 8-10 anos, 13-15 anos e assim por diante. O resultado foi surpreendente: 98% das crianças no jardim de infância apresentavam um nível de ‘genialidade’ elevado, o qual foi diminuindo gradativamente conforme elas foram envelhecendo ou, como afirma Sir Robinson, foram sendo educadas dentro do atual método de ensino.

Há questões muito mais profundas levantadas a esse respeito, como, por exemplo, se é possível a quebra de paradigma a partir da adoção de um novo modelo educacional, ou ainda se essa quebra de paradigma devia levar em consideração o mercado profissional tal como ele se encontra estruturado hoje ou simplesmente deveria focar em uma educação abrangente e não especializada.

Em minha opinião, um novo sistema de ensino precisa ser pensado. O ser humano tem que estar em foco e não o mercado profissional. A educação tem que ser eficaz para os alunos, para que possam desenvolver as suas habilidades inatas. Talvez seja algo que ainda esteja muito distante de acontecer na vida real. A educação é, certamente, um dos instrumentos mais poderosos de uma sociedade. A partir dela, toda uma estrutura pode ser construída ou desenvolvida para permitir mudanças comportamentais e culturais (transformação social). Ainda assim, essas são questões que, acredito eu, deveriam ao menos entrar em pauta para discussão.

Abaixo, alguns trechos e os links para textos interessantes a esse respeito.

I'm not saying she should have fought him (and I'm not not saying it, either), but what kind of school doesn't want a kid to stand up to a bully, especially when they're doing it to help someone else? What kind of crazy school wants you to back down-- and get someone else to protect you? What kind of a maddening school indoctrinates kids that power is only allowed to be possessed by a) bad people; b) the authorities?Oh. All of them ~The Last Psychiatrist
 
Na verdade, o que eu estou dizendo é apenas que temos que ficar menos conformados em encher o nosso HD com coisas que já falaram. Temos que desafiar o aluno a pensar, criar, conjecturar, e não memorizar.
(…)
Essa semana, estive num programa de TV e a apresentadora falou que ‘a escola tem que ser chata, pois chega uma hora que o aluno tem que parar e ouvir’. Sou radicalmente contrário a esse ponto de vista. O aluno tem que parar e ouvir, sim. Mas não por força da chatice, e sim por interesse próprio ~ Perestroika

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

O que você estará fazendo daqui cinco anos?


O que você estará fazendo daqui cinco anos?


Terminando o último ano do colégio, da faculdade, do mestrado, do pós-doutorado? Decidindo se vai estudar Medicina ou Artes do Corpo? Ou se arrependendo de ter feito Ciências da Computação? Entrando na igreja pra casar com o/a namorado/a recente, desconhecido/a, antigo/a, de infância? Ou dizendo não no altar? Tendo o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto filho? Ou decidindo que não quer ter filhos e que é isso mesmo? Sendo promovida/o para o cargo que você tanto queria? Adorando cada dia de trabalho, como se fosse o primeiro? Trabalhando no mesmo lugar, apesar de sofrer diariamente com isso? Trocando de profissão, buscando algo que a/o faça feliz? Enchendo a cara todos os dias para aturar o trânsito, a poluição, as responsabilidades, a pressão, a rotina? Reencontrando velhos amigos que há cinco anos você não vê?


O que você estará fazendo daqui a cinco anos? É isso mesmo que você quer? Você pensou, planejou, refletiu e decidiu isso para você?


Tudo que acontece em nossas vidas é nossa única e exclusiva responsabilidade. É fácil deixar-se levar com o auto-engano do cérebro ativado e descobrir milhares de motivos que confortam e justificam as coisas que não aconteceram do jeito que a gente queria. A verdade é que tudo o que acontece é fruto direto de uma decisão tomada em algum momento. Daqui a cinco anos você pode estar fazendo algo que você quer muito ou pode simplesmente estar sendo levada/o pela rotina. E a rotina é uma merda. Ela limita, tira o foco, domestica seus instintos, desvirtua suas vontades, faz até mesmo você pensar que quer algo que, na verdade, você nunca nem desejou.


Vivamos, sobrevivamos, sigamos em frente – porque não há outro caminho a seguir. Mas paremos, pensemos, reflitamos. A vida é nossa, as decisões são nossas. Ninguém pode decidir por nós. Daqui a cinco anos talvez não nos importemos mais com tudo isso, talvez não saibamos mesmo o que queremos e... a vida é assim mesmo, paciência. Talvez daqui a cinco nem nos falemos mais. Ou, quem sabe, em cinco anos, provaremos o contrário e nos encontraremos para tomar um açaí com goiaba ou um chopp gelado. E o assunto desse nosso encontro dependerá das decisões que estamos tomando hoje.


Trilha sonora sugerida: Noah and The Whales performing ‘5 years time’:






terça-feira, dezembro 07, 2010

(ainda me doía) o sonho de outro dia.


Você estava com outro e sorria.
Eu era espectador. Resignado,
Observava à distância.
No peito, coração apertado.

Eu lhe queria por perto,
Mas a razão racionalizava.
Eu obedecia, irrequieto;
A emoção contrariava.

Nada havia a ser dito,
Mas era certo ficar calado?
O coração golpeava solícito,
Repleto de anseios passados.

Você me via, mas me ignorava.
Eu sorria e você silenciava.
Era você disfarçando, eu assistindo;
Eu me declarando, você resistindo.

Era sonho, mas eu não sabia;
Ainda que soubesse, não sei o que faria.
Era sonho, então logo acordei.
Versifico apenas o que lembrei.



sábado, novembro 13, 2010

Happiness Is Overrated.


A versão em Português deste texto está aqui: 'A felicidade, essa superestimada'.

What makes you happy? What is happiness? How do you measure happiness? Is it measurable?

I have the impression that many people never get to ask these questions and, probably, don’t even seek to try answering them. Even if people are not necessarily concerned with knowing what happiness is and what makes them happy, the vast majority seems to be pursuing happiness. Regardless of what I understand (or ignore) about happiness, the fact is that the Brazilian National Congress is moving to ensure the right to the pursuit of happiness for their citizens (there is a Financial Times article about it). That's right: there is a Constitutional Amendment Project (Projeto de Emenda Constitucional or simply PEC, in Portuguese) which aims to include the 'pursuit of happiness' as a fundamental right in the chapter of the Brazilian Federal Constitution which deals with social rights (more precisely, in Article 6).

The project is being called 'happiness amendment' and is promoted by Movimento Mais Feliz (The Happiest Movement, in a free translation). The idea seems to be very promising. However, in my opinion, the 'happiness amendment' does not change a thing. It's too much rhetoric for little action. Even knowing that such amendment is not intended to guarantee happiness, but rather the pursuit of it by each citizen, I cannot agree with it.

Firstly, because I understand that such a provision needs not to be written in the Constitution. As a concept, the Constitution should not be used to establish a social right loaded with as much subjectivity as the 'pursuit of happiness'.

Secondly, because, frankly, such provision being in the Brazilian Federal Constitution or not doesn't make any difference. What would really make a difference would be to actually guarantee a good education system, a working and cheap healthcare system, etc. (which, incidentally, is already provided in the Constitution, in the same Article 6, which the Brazilian National Congress seeks to alter by the 'happiness amendment' – and so far we have not seen any major changes...). Happiness, then, could come as a direct result. Perhaps not, because it depends on each person and what each person reckon as happiness. In short, the inclusion of the 'happiness amendment' won't provide any real difference for the citizens.

Finally, and most importantly, I cannot agree with the 'happiness amendment' because such a provision assumes that there is a full and unrestricted happiness, which can be enjoyed by any person to whom is guaranteed certain social rights. The truth is that happiness is much overrated by modern society (especially in a capitalist one), which worship it and poses it as an ultimate objective to be achieved, alongside with glory, fame and money. What I see out there on happiness is a very overrated, unrealistic, unattainable and distant from reality concept, by which happiness is always two steps ahead of where people stand. The pursuit of happiness, then, becomes an unnecessary pressure that hinders the conjugation of the verb ‘to live’.

Personally, I try not to keep the pursuit of happiness in my mind. To be honest, I've given up looking for it, not because I have concluded that it does not exist or because I understand that it is unattainable. But, rather, because I believe that pursuing happiness is not the most important thing in life. What happiness means and represents, whether it is near or far, is something that doesn’t really interest me. I acknowledge that I have lived many happy moments and I value each one of them (I am living heaps of joyful moments here in London!). I prefer, however, to not carry the burden of having happiness as a goal and to not pursuit it as a life objective. All I wish is to happiness show up from time to time, randomly and unpretentiously.

Perhaps there is no such thing as happiness as portrayed in Hollywood films, novels, etc., rather happy moments, which often are not noticed immediately as they happen, but further in life, when remembering the good old times. And that should be enough.

* * *

For further consideration for those interested, I quote below some passages on the topic and the links to the websites where I found them (I apologize that the original texts are in Portuguese... Google Translate does a good job if you want to read the whole text):

What is happiness? How do you define happiness? The films show us an utopian happiness. The novels, ditto. I dream of a day at the beach, palm trees, blue sky, cloudless, preferably with a beautiful woman and being put grapes in my mouth. I find it hard to happen, but who knows. Everything is so pretentious. Everything has to be so sophisticated. We are never satisfied with what we have. I bet if I was at the beach, with palm trees, a beautiful day and a beautiful woman, I would still miss the shadow.
(Simplicity or do you want to fight before sleeping? by Daniel Bushatsky)

In terms of happiness, governments can provide the best possible conditions for each individual to pursue his project – for example, as suggested by the proposed constitutional amendment, guaranteeing all basic social rights. But the best government does not prefer a specific kind of happiness for the citizens.
(The Right to Pursue Happiness by Contardo Calligaris)

In my humble opinion, the weak point of this article and similar ones is a complete inability to define ... Happiness! After all, what is happiness? Is it a state of ecstasy? Is it moments of transcendence? Is it simply the absence of pain? Is it pleasure? How to measure it objectively? How to measure it objectively for people of different cultures with different values, with different priorities?
(Having Kids Makes People More Sad. Or not by Alex Castro)

* * *

The greater certainty about happiness was sung by Vinicius de Moraes and Tom Jobim:

Though sadness lingers on
Soon happiness is gone
Happiness is like a little feather
The wind has carried up into the air
Floating so free
Yet it can only be
As long as there’s a breeze to hold it there

Below, the performance of this song by Tom Zé:




This post is a translation by myself of the post 'A Felicidade, Essa Superstimada', written in Portuguese.

segunda-feira, novembro 01, 2010

Limpeza de frases guardadas.


Frases e idéias soltas que nunca consegui transformar em textos maiores, personagens completas ou poemas.

'A razão maltrata o coração. O acaso nos proporciona as melhores experiências de vida'.

'Quero tudo que me é permitido, tudo que me é proibido. Quero tanto e nada faço. Revolto-me em silêncio. Sigo sem compasso'.

'Reluto em aceitar o sangue errante que pulsa em minhas veias; disfarço e faço acreditarem que me sinto parte disso tudo'.

'I once gave you the butterflies / now I only see your sorrow eyes / I know it was all my fault / but I really wish you still were my pal'.

E agora? Breves notas sobre as eleições de 2010.


Minha opinião sobre eleições, Brasil e futuro. Gostei de escrever, espero que gostem de ler.

Dia 31 de Outubro de 2010 é uma data histórica para o Brasil. É a data em que foi eleita a primeira presidente mulher (ou presidenta, por que não?) do Brasil, de nome Dilma Rouseff. Não pude votar por estar morando em Londres. Porém, estou torcendo (e muito) para que tudo dê certo, bastante ansioso e curioso para saber o que vai acontecer com os rumos do Brasil. Estou apreensivo, mas esperançoso, após um governo Lula que, se não foi um primor de transparência e exemplo de administração pública, inegavelmente deixa um saldo positivo.

É muito importante reconhecer a evolução social vivenciada pelos brasileiros durante esse período recente de nossa história. Os programas do governo Lula (destaque para o 'Bolsa Família'), ao mesmo tempo em que tem um caráter assistencialista (necessário, diga-se), permite que pessoas que viviam na extrema miséria consigam manter um padrão mínimo de sobrevivência (não estou falando de um padrão mínimo de qualidade de vida, mas de sobrevivência!) e movimentando a economia ao redor dessas pessoas (que praticamente inexistia anteriormente). Não há como negar que milhões de pessoas ultrapassaram a linha de miséria e passaram a fazer parte da economia brasileira pela primeira vez na história (a frase ‘nunca antes nesse país’ virou até piada. Mas, a esse respeito, é verdadeira). Há várias críticas que podem ser feitas ao programa ‘Bolsa Família’, pois realmente pode ser utilizado como instrumento eleitoral. Contudo, a linha entre utilização eleitoral ou não é muito tênue, pois é natural que uma pessoa beneficiada pelo programa vote na pessoa ou partido que o implementou. Enfim, eu ainda não consigo me arriscar a tomar partido de modo definitivo a esse respeito, até porque me falta conhecimento sobre o assunto. Eis um ponto para reflexão futura.

(primeiro parêntese: o fato de o governo Lula não ter sido exemplar deve sempre ser objeto de crítica, obviamente. O fato de haver um saldo positivo – principalmente no aspecto social, como se verá abaixo – também não justifica nenhum dos problemas do governo Lula, tais como mensalão ou inchaço da ‘máquina’ pública)

No novo governo que se iniciará em 2011, claramente uma extensão do governo Lula, sob as batutas da presidenta Dilma Rouseff, questões antigas precisam ser enfrentadas e cabe a nós participarmos ativamente desse processo. Então não adianta ficar de mimimi ou torcendo contra, para que tudo dê errado. Afinal de contas, se tudo der errado mesmo, o maior prejudicado somos todos nós, brasileiros. Aliás, pergunto: o que restaria aos ‘do contra’ na hipótese de tudo dar errado no final? O regozijo de poder levantar uma placa em que se lê ‘eu já sabia’? Ao custo de um país inteiro em frangalhos? Vale a pena? Não. Eu não consigo encarar as coisas dessa maneira. Prefiro torcer a favor. Um governo bem feito beneficia a todos. Isso não significa, entretanto, que devemos assistir passivamente a todo e qualquer ato governamental. É importante estarmos atentos aos principais temas que determinarão os próximos passos do Brasil. Espero que todo esse engajamento que vi entre meus amigos durante estas eleições continue durante os próximos anos, mas de modo mais racional do que nestas eleições.

(segundo parêntese: esse negócio de acompanhar eleições tal como se acompanha jogo de futebol precisa parar. Não dá para agüentar tanta irracionalidade. O mimimi dos eleitores-perdedores é tão ruim quanto a deselegância dos eleitores-vencedores. Comentários preconceituosos, bairristas e egoístas, de um lado, e exaltações chulas, deselegantes e despropositadas, do outro. O povo não vence ou perde no dia da apuração dos votos, mas somente depois que um governo é concluído)

Em termos gerais, do que me lembro de imediato, as reformas tributária, previdenciária e eleitoral precisam ser levadas a cabo. São pontos fundamentais para o desenvolvimento do país. Por falar em desenvolvimento, durante o governo Lula houve uma contínua desindustrialização do Brasil. Isso precisa ser observado muito de perto. É necessário reverter essa tendência, com maiores incentivos às indústrias nacionais ou benefícios para o estabelecimento de indústrias estrangeiras em nosso território, de preferência com a transferência de tecnologia. Ser um dos maiores exportadores agrícolas do mundo é algo louvável, mas isso não pode acarretar no sucateamento da indústria nacional. Pelo contrário, seria interessante tentar aproveitar essa posição para também desenvolver o beneficiamento desses produtos e vendê-los já manufaturados para o exterior, com maior valor agregado. Além disso, alguns assuntos espinhosos precisam entrar de vez na pauta de discussão da sociedade, dentre eles: descriminalização e legalização das drogas, pesquisas com células-tronco embrionárias e aborto. É o momento de o Brasil aproveitar sua evidência mundial para tornar-se pioneiro em algumas áreas, com toda a cautela, obviamente, respeitando-se as limitações e todo o contexto histórico, social e cultural do país. Todos esses temas são muito importantes e gostaria de vê-los serem mais debatidos pela sociedade.

Entretanto, em minha opinião, o tema de maior relevância e que não pode ser esquecido diz respeito ao sistema educacional brasileiro. Há muito tempo, a estrutura de ensino no Brasil precisa ser repensada. Mas isso fica para um próximo post.

* Esse texto é inteiramente opinativo e você tem todo o direito de discordar. Comentários são em vindos. A minha opinião está aqui exposta com base no que eu já li, ouvi, pesquisei e estudei ao longo dos últimos anos, mas sem o uso de nenhum critério científico. Não se trata de uma tese acadêmica, nem de um texto jornalístico.

sexta-feira, outubro 22, 2010

É saudade.


Sim, vou generalizar: o ser humano só dá valor para algumas situações de vida quando elas já estão fora de seu alcance, afastadas pelo tempo ou pela distância. O presente ofusca qualquer tentativa de compreensão ou valoração do sentimento.

A saúde tem muito mais valor quando se está doente. O dinheiro tem muito mais importância quando não se o tem. Aquele amigo faz falta quando não está mais por perto. Um problema deixa de ser um problema quando você se afasta dele o suficiente. Aquele dia de verão em casa sem fazer nada parece muito mais interessante dez anos depois do que quando foi vivido intensamente. A música que tocou no dia em que você a conheceu geralmente só ganha importância se você não a tem mais ou se a tem à distância. Um amor dilacera o coração quando separado por quilômetros de distância.

A nostalgia se consagra com o tempo. A distância revela a importância.